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Juventude transviada

Texto de antropólogo fala como tem sido difundidos, principalmente pela internet, vídeos com imagens violentas e pejorativas. Os materiais são disponibilizados principalmente pelos jovens

Pegadinha em que grupo de jovens filma a agressão que comete contra alguém e a põe na web, o "happy slapping" potencializa um processo de regressão nos países ocidentais

Uma professora é agredida por um aluno, e a ação é filmada tranqüilamente por outro aluno, que em seguida exibe o troféu na internet.

Outras façanhas em outros lugares também são filmadas e difundidas: violências físicas, sexuais, cenas de motim e de destruição de bens, de enfrentamentos entre bandos rivais, de agressões menores cometidas na rua contra desconhecidos, à imagem do "happy slapping" ["tapas felizes", pegadinha amadora que se espalhou pela Europa, na qual uma pessoa sozinha é atacada por um grupo, que filma a ação].

Em seguida, essas cenas se tornam algo como medalhas transmitidas pela internet, para confirmar o valor da proeza. Além disso, inúmeros sites guardam à disposição de amadores um repertório de cenas de estupros, torturas e assassinatos, que se pode descarregar mediante pagamento.

Em outro registro, mas ligado a esse, emissoras comerciais transmitem em horários de grande audiência seqüências ultraviolentas tiradas da vida real, sem grande preocupação com o sofrimento das vítimas ou de suas famílias. Programas especializados às vezes as reúnem numa espécie de "best of".

Desregulação
De modo mais "soft", multiplicam-se programas baseados no princípio das "pegadinhas", flagrando pessoas em seu dia-a-dia, em situações constrangedoras, para se divertir de maneira típica de um voyeur, chegando a envolver crianças e enervando os adultos.

Os próprios telespectadores enviam seqüências de vídeo em que alguém próximo deles involuntariamente se feriu ou se meteu em uma situação ridícula. O "happy slapping" está no ar dos tempos, como uma espécie de ambiente generalizado.

Programas ao estilo de "Jackass" ou "Dirty Sanchez", em que a provocação vira uma forma de humor, tornam-se cult e são uma espécie de ilustração lúdica (mas consentida pelos atores) da tendência.

Onde no passado o atrativo da regressão era barrado por proibições ainda relativamente ativas, reforçadas pela presença de pais ou outros adultos vigilantes em termos de educação, hoje a proibição se vê atacada por outras modalidades educativas mais centradas no deixar-fazer e na auto-regulamentação, pelo fato de serem fundamentadas no sentimento de autonomia da criança.

Enquanto os pais perdem sua influência educativa e a escola tem dificuldade em estabelecer regras de uma cidadania compartilhada, parte dos jovens cai sob a influência de uma cultura dos pares que é inteiramente regida pelo universo do consumo e da publicidade, acentuando ainda mais o abismo entre as gerações. Nenhuma instância mais tem condições de ditar as condutas de normas morais.

A experimentação comanda uma parte da relação com o mundo, e o corpo-a-corpo termina por tomar o lugar das referências de sentido ou valor compartilhadas.

Sem distinção
É perceptível, entre alguns jovens, uma ausência de distinção entre as prerrogativas do espaço privado e as exigências sociais do espaço público. As restrições próprias a este último são sentidas de bom grado como imposição intolerável ou como recurso para uma provocação lúdica dos outros, especialmente os adultos.

Muitos jovens não se sentem culpados por tais comportamentos -pelo contrário, sentem prazer em provocar o que não ignoram ser as proibições de outros, pois, se essas proibições são inoperantes para eles, eles têm consciência do grau de irritação, constrangimento ou medo que suscitam à sua volta.

Satisfazem um impulso de regressão e regridem à posição todo-poderosa da infância ao mesmo tempo em que medem seu poder de ação sobre os outros. Esse jogo de provocação é reforçado por uma organização social que tende a se juvenilizar e a propor tais regressões como modelo de comportamento.

Numa sociedade em que os limites se negociam permanentemente, convém saber até onde ir. É uma preocupação, por sinal, tipicamente adolescente, acentuada pelo contexto contemporâneo de desorientação do rumo e pela necessidade de estabelecer por si só os códigos de suas relações com os outros e com o mundo. Adotar atitudes exageradas é uma boa maneira de chamar a atenção.

Diversos comportamentos do cotidiano são dessa natureza, com o desejo de causar inquietação entre eventuais espectadores de outras idades. Essas atitudes tendem a tornar-se comuns e corriqueiras nos lugares públicos ou nos transportes coletivos (empurrar pessoas aos gritos, peidar, arrotar, abaixar as calças, interpelar pessoas ruidosamente...). Tudo isso acompanhado de olhares de esguelha para avaliar o grau de êxito da provocação. Vivemos em sociedades de expressão livre do prazer, onde o gozo é de direito.
Se o outro deixou de ter valor, a vergonha não tem mais lugar, pois o pudor foi desqualificado. Parecer deixou de ter para o adolescente o sentido de comparecer, pois o olhar do outro é sem incidência, sob esse aspecto. Importa unicamente o fato de sentir prazer.

O outro ausente
O reconhecimento só tem valor quando vem dos pares -sobretudo não quando vem do pai ou dos mais velhos. É o mundo do próximo, dos colegas, e não do distante, daquele que representa uma alteridade.

É o mundo do "tudo pode", pois o lugar do outro não é integrado nesses comportamentos. A ausência de vergonha traduz o eu grandioso de certos adolescentes; em seu desejo de auto-engendramento, querem não apenas ignorar as regras e os valores do vínculo social como, de quebra, provocar aqueles que os olham.

O jovem conta com a garantia da conivência de parte dos que integram sua faixa de idade; nesse sentido, ele não subverte os modelos de civilidade, mas os reforça, na medida em que, aqui, a transgressão provoca o riso e o desprezo pelas vítimas.

Esses comportamentos são essencialmente masculinos, intensificando-se a partir dos velhos valores da virilidade, nos quais trata-se de ser o melhor, multiplicando as provas: quem urina ou cospe mais longe, quem "traça" mais garotas, quem tem "o" maior, quem "tem coragem" de agredir um transeunte ou um conhecido, quem lançou mais insultos aos policiais, quem incendiou um veículo etc.

As garotas estão ausentes ou, então, são espectadoras fascinadas dessas façanhas viris. Ritos menores de virilidade, que não se contentam mais com as palavras, mas exibem o troféu ao maior número possível de pessoas, para alimentar novas formas de heroísmo.

A preocupação em perder "moral", de sentir vergonha ou responsabilidade por seus comportamentos, não faz mais parte da ordem do dia. Ao contrário -os adeptos do "happy slapping" são ilustrações perfeitas do individualismo contemporâneo. Desligados do sentimento de pertencer a um conjunto, os outros, a seus olhos, não passam de figurantes. Em sintonia com o cinismo e o desprezo que penetram nossas sociedades, eles não podem colocar-se no lugar do outro; nenhum "outrem generalizado" foi integrado neles. Seu eu é destituído de outrem ao qual seria possível prestar contas.

DAVID LE BRETON é antropólogo francês, professor na Universidade de Estrasburgo e autor de "Adeus ao Corpo" (ed. Papirus). Este texto foi publicado no jornal "Libération".
Tradução de Clara Allain.

Publicado na Folha de São Paulo - +Folha Mais em 30 de julho