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Entrevista com Reinaldo Ramos, professor de Filosofia formado pela UFRJ

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Entrevista com Reinaldo Ramos da Silva, professor de Filosofia formado pela UFRJ e mestre em Educação em Ciências pela mesma universidade. Reinaldo é hoje técnico em assuntos educacionais e doutorando em Educação na UFF. Sua pesquisa é sobre o Colégio Estadual Comendador Valentim dos Santos Diniz (NATA), em São Gonçalo, uma das escolas de ensino médio integrado em parceria público-privada da SEEDUC-RJ.

- Seria viável e/ou desejável universalizar esse modelo de educação integral?

 

É preciso olhar os dados e sua interpretação pela SEEDUC/RJ com cautela. Universalizar o modelo de educação integral do estado até 2021, ou seja, em apenas 7 anos, não soa convincente. Se hoje em 2014 ele atende 1% da rede com 24 escolas (segundo a matéria), isso significa fazer em sete anos uma revolução de fazer inveja aos tigres asiáticos. A julgar pelas mais de 50 escolas fechadas no período em que o atual secretário está à frente da SEEDUC-RJ, a estratégia para universalizar o modelo parece que será o de encolher a rede para tornar viável sua implantação total. A meu ver, a universalização é impossível nos marcos da política atual. A escolha dos locais para instalação destas escolas também causa estranheza, pois parece não obedecer a uma lógica muito clara.  A região da Tijuca, por exemplo, conta com duas escolas neste sistema. O NATA, uma parceria da SEEDUC com a secretaria de Agricultura e Pecuária implantou um pólo de formação técnica em um município com vocação para outras atividades econômicas.  Como consequência, os alunos não ingressam no mercado proposto pela formação oferecida na escola e tornam-se clientela das universidades públicas do estado - ou, na hipótese ruim, aceitam empregos que exigem uma formação muito abaixo daquelas que eles possuem (no NATA há casos de alunos com estágio técnico na França trabalhando como balconistas de lojas de conveniência). Concluo afirmando que a universalização talvez não seja viável, mas a multiplicação estratégica talvez seja interessante do ponto de vista da política pública, uma vez que a consolidação destas escolas não aponta para um caminho tecnicista como nos moldes do ensino técnico preconizado no período militar. Pelo contrário, é um modelo que usualmente mira onde vê e acerta onde não vê. Desenvolver parcerias locais segundo as vocações econômicas das regiões do estado e implantar múltiplos núcleos pode parecer uma política interessante. Mas seu sentido será totalmente esvaziado se não vier acompanhado de uma política séria de valorização da carreira docente como um todo, com incentivos justos à qualificação dos professores e com boa vontade para a concessão de licenças e bolsas de estudo para a complementação da formação, além do assentamento dos docentes em somente uma escola, onde seja possível uma gestão participativa, democrática. Uma proposta interessante seria a equiparação do plano de cargos e salários com os profissionais da FAETEC, escolas técnicas subordinadas à secretaria de Ciência e Tecnologia que funcionam sem as PPP's das escolas integradas, mas que também apresentam números destacados quanto ao ingresso de ex-alunos em universidades públicas sem prejuízo para o ingresso de ex-alunos no mercado profissional para técnicos. Seria válido observar a performance deste dois modelos similares e traçar pontos proximais para compreender de que forma as escolas integradas poderiam atender melhor a população sem tornarem-se uma experiência segregadora e elitista. Um dado curioso sobre o modelo da FAETEC e o das escolas integradas é que a primeira possui um caráter de uso político muito mais evidenciado, uma rede capilarizada pelo estado todo e instrumentalizada por lideranças regionais, dificultando o ingresso de profissionais concursados - uma vez que a reserva de vagas para contratados sob indicação possui cota elevada de modo a atender aos interesses de seus "patronos" locais, enquanto a presença do capital privado retrai esse tipo de aparelhamento nas escolas de PPP, por estarem submetidas a uma lógica gerencial diversa.

 

- Esse modelo responde aos anseios dos jovens de ensino médio?

 

Precisamos saber de qual jovem do ensino médio estamos falando. Para alguns sim, para outros não. E talvez, para muitos deles. Antes de tudo é preciso ouvir os jovens, conhecer suas demandas, dar espaço para que eles possam expressar seus desejos, seus sonhos, suas inquietações. Muitos ingressam na escola mal sabendo do que se tratam os cursos técnicos que irão fazer. As instalações amplas, as oportunidades de estágio, de participação em eventos, a realização contínua de trabalhos integrados permite a estes alunos uma imersão interessante em processos de autodescoberta que já são naturais à idade, mas que ganham força em escolas como as contempladas neste modelo, que a meu ver tem seu ponto alto na criação de múltiplos espaços de encontro.  São escolas da diversidade por excelência, consequência de dois processos: o processo seletivo de alunos que arregimenta e congrega moças e rapazes de diversas localidades periféricas e a interface externa com profissionais experientes em diversas áreas, tanto técnica quanto docente. São profissionais com titulação acadêmica e currículo internacional. Se não responde aos anseios, seguramente têm o potencial de auxiliá-los no processo de descoberta de novos anseios, para fazer deles caminhos, sonhos, começos, recomeços, em suma, produzir vivências capazes de ampliar a experiência de mundo para muito além daquilo que pretende objetivamente propor a escola em seu currículo e fazer desta passagem um ponto de inflexão fundamental para o esboço de seu futuro.

 

- Quais podem ser os reflexos de um grupo elitizado de escolas públicas em relação ao sistema de ensino em geral?

 

A experiência é bem sucedida, mas conta com vantagens que ferem o princípio da isonomia do serviço público e procuram implantar uma lógica de "quase-mercado". Ao oferecer benefícios em forma de gratificações para os professores destas unidades o modelo consegue recrutar profissionais mais bem qualificados dentro da rede em processos internos de seleção. O ingresso dos alunos também ocorre por concurso público, colaborando na atração de alunos já previamente assentados em um percurso de relativo sucesso escolar - mesmo que contando com uma cota elevada para egressos das redes municipais. Some-se a isso o aporte de generosos recursos privados e públicos, temos um conjunto de fatores que fazem com que estes espaços sejam oásis de infraestrutura em função primordialmente da atenção política que lhes é dispensada por parte do governo. Para a questão da universalização do modelo, fica outra questão: se o sucesso da fórmula depende da seleção de professores que passam a receber gratificações e a ter dedicação exclusiva, de que modo sustentar a "qualidade" se o modelo vai se universalizar e o estado não investe na qualificação de seus profissionais? Os incentivos à qualificação por mestrado e doutorado dentro da rede são irrisórios. Esse modelo só é possível porque mimetiza a lógica liberal: o "mérito" separa o 'mais aptos' dos 'menos aptos'. Sendo assim, dentro da SEEDUC/RJ persistirão os docentes desmotivados, as escolas sucateadas, as direções com práticas administrativas conservadoras, todos a perdurar como adorno da decadência para fazer luzir com mais brilho as pequenas joias da coroa adornadas com seus enfeites de “eficiência”, “inovação” e “competitividade” nos marcos da nova linguagem da meritocracia liberal. A não ser que o estado abandone sua política de gestão amparada na nebulosa GIDE (Gestão Integrada da Escola), um roteiro de aferição de resultados que pauta gratificações meritocráticas cujo resultado tem sido o de aumentar ainda mais a desmotivação e o sentimento de divisão interna entre a categoria docente. A não ser que o estado comece a adotar políticas realmente efetivas para conter a drenagem contínua de bons profissionais. A política de "desincentivo" à qualificação docente burocratiza ao limite da desistência todo o esforço de afastamento para estudos por parte dos professores e traz com isso uma tendência à ampliação da desigualdade dentro da rede pública estadual. O ensino integrado é fruto de uma decisão política muito clara: priorizar a qualidade total em um número restrito de unidades escolares para, unindo o útil ao agradável, atender aos interesses das grandes empresas parceiras para qualificação de mão-de-obra especializada, e, vender à população um "projeto" na área de educação que possa auferir vantagens eleitorais dada a sua comprovada eficiência - elidindo, obviamente, a situação precária dos outros "99%" da rede pública.  Quero também lembrar uma das primeiras escolas do sistema de PPP e que a matéria não cita: o Colégio Estadual Erich Walter Heine, em Santa Cruz ("a primeira escola sustentável da América latina"), que possui parceria com a Companhia Siderúrgica do Atlântico e tem como mote a sustentabilidade. A empresa foi denunciada pelo ministério público estadual por diversos crimes ambientais, repercutidos no exterior e tratados com conveniente complacência pelas autoridades locais. Fica o registro do quão grave deva ser para um educando vivenciar um processo pedagógico dentro de uma contradição performativa tão explicitada e o quão imprevisíveis do ponto de vista ético podem ser as consequências desta contradição. E por fim, proponho a seguinte reflexão: se a secretaria de educação é capaz de estabelecer parcerias com entidades cuja diversidade abrange desde a Fundação Ayrton Senna, passando por embaixadas, empresas de telecomunicações, ONGs, condados estadunidenses, oligopólios midiáticos, siderúrgicas causadoras de danos ambientais, porque afinal ela não consegue abrir uma interlocução saudável com o sindicato dos professores e com as Universidades Públicas Brasileiras (que tão bem tem acolhido os alunos egressos destas escolas...)? Será que a "solução" realmente está tão longe assim?

 

 

- Há interferência da iniciativa privada na gestão dessas escolas?

 

Dentro do NATA (escola em que lecionei no ano de 2012), não que houvesse uma interferência no sentido negativo ou explícito do termo. Mas a escola durante um bom tempo funcionou como se cumprir a missão de formar profissionais voltados para o mercado de trabalho em panificação, leite e derivados fosse um imperativo definidor da sua própria identidade. Isto fez com que alguns docentes do currículo da SEEDUC/RJ começassem a perceber um certo tratamento distintivo que conferia aos docentes técnicos uma espécie de primazia quanto à organização de eventos, cessão de tempo e espaço para atividades extracurriculares, enfim, para as questões pertinentes à rotina escolar de maneira geral (os docentes técnicos são remunerados pela empresa parceira e contam com proventos mais generosos). Tanto que havia um discurso velado entre os docentes, endossado pela direção, que permitia à escola o cumprimento de um currículo que priorizava a formação técnica onde os conteúdos relevantes para a realização do exame nacional do ensino médio não seriam profundamente contemplados. Essa realidade começa a mudar à medida que um contingente significativo de alunos egressos do NATA começa a integrar as fileiras das universidades públicas estaduais, enquanto a absorção de ex-alunos dentro do universo profissional atendido pela secretaria de agricultura (parceira do projeto) manteve-se em níveis talvez aquém dos esperados inicialmente. Não se sabe se por erro estratégico, afinal, a maioria dos empregos no setor fica em cidades interioranas. São Gonçalo é situada na região metropolitana, possui uma juventude com enraizamento urbano. O aluno de um município com estas características reluta em assumir vagas de emprego em cidades situadas a 300 km de sua família, jovens de 17, 18 anos em sua maioria.

 

*Entrevista concedida ao Tô no Rumo