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Reportagens

Reportagens

O Observatório Jovem e o Pontão do Jongo/Caxambu

Tia Maria da Serrinha na inauguração da sede do Pontão na UFF-Foto:Paulo CarranoO Jongo é cultura do sudeste criada durante o período colonial com a chegada de negros e negras da nação Banto ao Brasil. A magia entoada pelo soar dos tambores, os pontos de louvação e de brincadeiras puxados por cantadores, a beleza dos passos da dança com saias rodadas, lembram as rodas de samba do recôncavo baiano. O Jongo tem origem nas expressões culturais africanas e se propagou nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Hoje, comunidades jongueiras e pesquisadores trabalham para a continuidade desta cultura em constante transformação só encontrada no sudeste brasileiro

O reconhecimento pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) do Jongo como Patrimônio Imaterial em 2005, permitiu o surgimento de diversos projetos voltados para a salvaguarda do jongo e das comunidades jongueiras. O Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu surgiu como uma destas iniciativas. Resultado de diferentes experiências em diversos setores da UFF (Departamento de Educação Matemática em Santo Antônio de Pádua, Observatório Jovem do Rio de Janeiro e Laboratório de História Oral e Imagem – LABHOI)  e com a parceria das comunidades jongueiras. O Pontão  do Jongo/Caxambu começou a atuar efetivamente em março de 2008 após o processo de convênio com o CNFCP/IPHAN (Conselho Nacional de Folclore e Cultura Popular/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a Fundação Euclides Cunha (FEC/UFF).

A coordenação geral do projeto é da Profª. Drª Eliane Monteiro do Departamento de Educação Matemática/UFF de Santo Antonio de Pádua. Contando com a participação junto a lideranças jongueiras do sudeste, professoras e alunas da Universidade Federal Fluminense (UFF) que contribuem para a realização de oficinas, documentários e seminários. Segundo a doutoranda em Educação da UFF e colaboradora do Pontão Mônica Sacramento, o Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu prevê três eixos de ação: articulação, capacitação e difusão da cultura jongueira.

As comunidades que integram o Pontão são treze:  Santo Antonio de Pádua,  Miracema,  Porciúncula, todasjongueiros-Foto: Paulo Carrano do Noroeste Fluminense; Guaratinguetá, Piquete e São José dos Campos, em São Paulo; Barra do Piraí, Pinheiral, Valença e Angra dos Reis, no Sul Fluminense e Serrinha, na capital do Rio de Janeiro; e as comunidade de São Matheus – ES e Carangola – MG.

Na etapa de articulação a preocupação do projeto foi com a infra-estrutura das comunidades e a possibilidade de encontro das mesmas. Neste primeiro ano, o Pontão realizou eventos que estimularam a participação das comunidades e o fortalecimento de outras manifestações culturais de matriz africana. As comunidades participantes do Pontão encontraram apoio para a elaboração de projetos de captação de recursos e participação em editais públicos de apoio a projetos culturais.

 As oficinas que compõem o eixo de capacitação foram previamente discutidas com as lideranças jongueiras. Elas apresentaram propostas que estimularam a organização comunitária, a documentação de suas práticas por técnicas de audiovisual, história oral, educação patrimonial e o debate sobre as relações raciais no Brasil. Além disso, houve preocupação com a capacitação de jovens lideranças das comunidades para que estas cuidem da memória do Jongo e articulem ações de melhorias das condições de vida das comunidades jongueiras.

O Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu cria uma ponte entre a população jongueira e as escolas ao capacitar jovens das comunidades para difusão cultural. Na tentativa de consolidar a relação de aproximação entre as culturas do Jongo e da escola, encontra-se em elaboração uma caixa de DVDs com documentários sobre o Jongo acompanhada de material de apoio para professores. A perspectiva é que os alunos reconheçam o Jongo como verdadeira cultura e não mero folclore ou uma manifestação popular “exótica”.

Para a pesquisadora Mônica Sacramento, lembrar o Jongo apenas em datas comemorativas não é suficiente para desconstruir estereótipos. “Uma clara abordagem folclórica do Jongo não contribui em nada para a problematização das condições de vida às quais os jongueiros, em grande maioria negros e negras, são submetidos na sociedade brasileira”, salientou .

Jongueiros reunidos na inauguração do Pontão-Foto: Paulo CarranoO Pontão realizou quinze oficinas no ano de 2008, em quase todas as comunidades jongueiras, envolvendo cerca de 350 pessoas. As alunas do Mestrado em Educação da UFF, Mariana Camacho e Julia Zanetti, ministraram as oficinas “jovens lideranças jongueiras”, sob a supervisão do Professor e coordenador do Observatório Jovem Paulo Carrano, nas três grandes regiões de atuação do projeto: São Paulo, Noroeste e Sul fluminense.

Na avaliação de Mariana Camacho as oficinas complementam as reuniões de articulação por colocar em prática aquilo que é idealizado em teoria. “As oficinas de jovens lideranças trabalham o pertencimento do jovem dentro da comunidade procurando discutir caminhos para o relacionamento entre os jovens e os líderes mais antigos das comunidades, isto associado ao debate das políticas públicas para a juventude das comunidades jongueiras”, ressaltou a mestranda.

Para Raquel Dias da Conceição, 32, integrante do grupo de Jongo de Caxambu em Carangola (MG), a oficina de jovens lideranças jongueiras foi a que mais motivou o grupo que possui, atualmente, cerca de 50 membros. De acordo com Raquel, que também é  estudante de Serviço Social, o número de participantes jovens cresceu. Os jovens se mostram atraídos em divulgar sua identidade cultural. Foi a partir deste espírito que surgiu a idéia, durante uma oficina do Pontão em Carangola, de criar um jornal que abordasse temas relevantes não só para a comunidade jongueira, mas para a população de maneira geral.

Segundo Raquel, o conteúdo do jornal foi dividido em seções sobre saúde/prevenção, curiosidades, entrevistas com membros da comunidade jongueira, moradores dos bairros e jovens de destaque na comunidade (em diversas áreas: saúde, música, esporte); o jornal dará destaque também à cultura afro-brasileira, aos avanços e mudanças na educação, além  de eventos realizados pela comunidade jongueira. “A divulgação não será limitada, pensamos em distribuir inicialmente nas escolas do nosso bairro, onde mora a maioria dos jovens do grupo, deixaríamos alguns exemplares no Centro de Referência e Assistência Social (CRAS), Programa de Saúde da Família (PSF), e em outros lugares com salas de leituras, incluindo a biblioteca municipal, principalmente para os integrantes do grupo”, acrescentou.

PJongo da Comunidade São José da Serra em Piquete-Foto: Paulo Carranoorém, a publicação tem o seu futuro incerto. A falta de parceiros que apóiem os projetos desenvolvidos nas oficinas do Pontão,  aparece como um obstáculo para que as idéias sejam postas em prática, e isso pode ser frustrante para os jovens da comunidade que criam expectativas sobre as mudanças que podem ocorrer com o trabalho. “Não colocar em prática esse projeto elaborado naquele momento de sugestão e reflexão das ações e atitudes enquanto jovem jongueiro, é uma forma de desestimular principalmente os adolescentes que precisam desse incentivo”, disse em entrevista ao Observatório Jovem a jongueira Raquel.

Durante todo o ano de 2008 foram colhidos depoimentos de jongueiros para a produção do documentário do Pontão do Jongo/Caxambu. Sob a direção dos professores Paulo Carrano (UFF) e Valter Filé (UFRRJ), o documentário terá como eixo principal histórias de jongueiros e jongueiras das comunidades participantes do Pontão. A proposta não é a realização de um documentário institucional que apresente os objetivos, metodologia, atuação e resultados do Pontão. A questão central que organizou as entrevistas e orienta a edição do documentário é o que significa para cada um dos entrevistados “estar no jongo hoje”. “Algo que nos acompanha neste trabalho diz respeito às relações entre as tradições e as transformações pelas quais passa a cultura do Jongo”, comentou Carrano. 
 
Para o Observatório Jovem o Pontão do Jongo/Caxambu é uma oportunidade de vivenciar o trabalho de formação e produção de conhecimento com jovens inseridos numa cultura de trocas entre sujeitos de diferentes idades. O Jongo e o Caxambu surgem no Brasil como cultura de “pretos e homens velhos”. Ao longo dos anos se transformou  culturalmente e incorporou crianças, mulheres e jovens em sua dança de roda, no batuque de seus tambores e na entoação de seus pontos. É significativo para o Observatório participar de política pública que favoreça rede de apoio político e cultural para a articulação entre as comunidades, a formação de lideranças comunitárias e o favorecimento de meios para a preservação da memória jongueira. 

Participam do Pontão os seguintes pesquisadores do Observatório Jovem:  Os professores Elaine Monteiro e Paulo Carrano, a doutoranda Mônica Sacramento e as mestrandas Julia Zanetti e Mariana Camacho. 

Saiba mais sobre o Jongo e o Caxambu

Bracuí-Velhas lutas jovens histórias

As Comunidades Tradicionais

Jovens em Comunidades Tradicionais

 Sementes da Memória-documentário

Região Serrana do Rio ganha CEFET

Alunos do CEFET-PetrópolisA unidade de número 200 do CEFET traz novas oportunidades para jovens da região serrana. A estimativa é que  mais de mil vagas sejam oferecidas até 2011. O Presidente Lula, o Governador do Estado do Rio Sérgio Cabral e  o Ministro da Educação Fernando Haddad foram algumas das autoridades presentes na cerimônia de  inauguração do CEFET  em Petrópolis, durante a  tarde do último sábado (13) no centro da cidade

 

Com o tradicional jaleco azul-marinho, avental segundo o Presidente Lula, cerca de 20 alunos do curso inaugural de telecomunicações do CEFET representaram a instituição no evento. Para estes jovens o centro de educação aparece como uma perspectiva para ingressar na Universidade Pública. Em entrevista exclusiva para o Observatório Jovem dois estudantes falaram de suas expectativas em relação ao futuro. Para o estudante Vitor Alves de Oliveira, 15, a moderna infra-estrutura e a seriedade da escola irão ajudá-lo na hora de enfrentar o vestibular para uma Instituição Pública. “Pretendo cursar História numa Universidade Federal e prestar concurso público para Oficial da ABIN”, disse Vitor.

Para a também estudante Maria Leite Vargas de Oliveira, 15, valeu a pena o esforço na Escola Municipal Celina Schechner para entrar no Centro Educacional Federal. “Através de um concurso com as melhores notas consegui ser selecionada para o CEFET. Pretendo concluir o curso de telecomunicações, e estudar Design de Moda em uma Universidade Federal”, disse a estudante.   

A escola técnica está em funcionamento desde o dia 18 de agosto, no antigo Fórum do município. Este ano foram ofertadas mais de 120 vagas distribuídas igualmente entre os cursos de técnico em Telecomunicações, superior de tecnologia em gestão de Turismo e licenciatura em Física. A previsão é de que até 2011, quando estiver completamente instalada, a unidade da Cidade Imperial ofereça 1,2 mil vagas. O Ministro Fernando Haddad ressaltou a importância da escola técnica. “Essa escola vai libertar a juventude da criminalidade e do ócio. É a primeira com o curso de telecomunicação voltado para a TV Digital instaurado no país aumentando a oportunidade do jovem no mercado de trabalho”, concluiu o Ministro da Educação. Segundo o Diretor Geral dos CEFETs no Rio de Janeiro, Miguel Badenes Prades Filho, as próximas unidades serão instaladas nos municípios de Valença e Itaguaí. E até o final de 2010, 214 escolas técnicas estarão em funcionamento em todo o Brasil.

O investimento

Sob salva de palmas e gritos de “Viva o Presidente que lutou contra a fome”, Lula contagiou o público durante o seu discurso ao aliar experiências pessoais a questões relacionadas à independência da mulher propiciada pelo estudo, exportação de conhecimento e aumento da inserção de jovens nas escolas e universidades pelos programas do governo. “Quero que o povo tenha a oportunidade que eu não tive. Muitos doutores já governaram este país, acho que por já terem seus títulos não se importavam com a educação dos outros”, enfatizou o Presidente.

 Economia e educação andam lado a lado. Segundo o Presidente  Lula  parte do dinheiro arrecadado com o petróleo será destinado para o combate da pobreza e o investimento em novas Universidades e mais Centros Educacionais Federais.“O presidente que não tem diploma universitário é o que mais vai construir Universidades”, ponderou. A parceria do Governo Federal com o estado do Rio de Janeiro  foi destaque no discurso de Lula. Segundo o Presidente, o Rio de Janeiro foi um dos Estados que mais se beneficiou com o PROUNI. De acordo com Lula, mais de 30 mil alunos no Rio de Janeiro estão inseridos no Programa Universidade para Todos (PROUNI).
 
As parcerias município, Governo Estadual, Federal e instituição privada foram as responsáveis pela criação do CEFET em Petrópolis. Foram investidos cerca de  R$ 2,4 milhões para a construção da unidade – R$ 1,2 milhão do Governo Federal e o restante do município, estado e de instituições privadas, segundo informações divulgadas pelo MEC. O Prefeito de Petrópolis, Rubens Bomtempo, mencionou o repasse direto para o município como uma importante iniciativa da União para investir em Educação. Segundo Bomtempo, em três anos o município recebeu mais de R$ 20 milhões de reais.

As Deficiências

O Governo deve continuar o investimento nos CEFETs, mas não pode esquecer da Educação Básica e de como trabalhar a questão da evasão escolar que ainda é um problema no Brasil. De acordo com pesquisa divulgada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre o investimento em Educação no ano de 2007, um aluno de ensino superior custa para o Estado uma média de U$ 9.019.

Já para os estudantes de ensino fundamental, o investimento é muito mais baixo: U$ 1.159 por aluno, o quê deixa o Brasil atrás do México e do Chile. A  maioria dos países gastaram em média U$ 5.832 por aluno do ensino fundamental.

Em entrevista para o Observatório Jovem, o Professor da Faculdade de Educação da UFMG e coordenador do Observatório da Juventude, Juarez Dayrell, colocou a questão do Ensino Médio como um “entrave” para o Brasil. “Temos que pensar em que medida uma profissionalização, de fato vai garantir essa inserção profissional”. Dayrell salientou que a lei do mercado vai mostrar a eficácia dos cursos profissionalizantes, e a necessidade da ampliação do número destes Centros Educacionais que ainda são para poucos. “Precisamos construir uma proposta de ensino médio que possibilite àqueles que não ingressarem na universidade, uma profissionalização de fato. É o que vemos acontecer nos CEFETs. O problema é que os CEFETs no Brasil são para uma minoria”

Os protestos

Durante a cerimônia em que o Prefeito Rubens Bomtempo destacou a Farmácia Popular de Petrópolis como um dos ganhos do seu mandato, e o Governador Sérgio Cabral salientou a vinda da UPA (Unidade de Pronto atendimento 24 horas) para o município, cerca de 20 manifestantes entre os dois mil presentes (segundo dados dos organizadores) aproveitaram para mostrar a insatisfação com a saúde pública. Segurando cartazes  que retratavam a falta de atendimento e a precariedade do sistema de saúde, os manifestantes reivindicaram por melhorias.

A solenidade terminou com o Presidente Lula  vestindo o jaleco do CEFET e dizendo  sair  mais brasileiro cada vez que inaugura uma escola. O CEFET, escola técnica de qualidade, é um aparelho público a serviço da garantia do direito à formação técnico profissional dos jovens na etapa da escolarização média.

Veja matérias relacionadas aos CEFETs 

 A Educação Técnica: Para quem?

Segredos Internos. O sucesso do maio de 1968, em uma escola técnica, em maio de 2008

Universidades e escolas técnicas vão poder contratar 49 mil professores 

Estudantes de Comunicação de todo o Brasil reunem-se pela democratização da informação

Na semana do dia 20 à 27 de julho mais de 650 estudantes de Comunicação
de todo o Brasil reuniram-se em Niterói na Universidade Federal Fluminense
(UFF) para o 29°Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (ENECOM). “Eu
organizo o movimento, eu oriento o carnaval” com lema que ressalta a cultura
popular do Rio de Janeiro e a conscientização política, o evento promoveu o
intercâmbio de conhecimentos por espaços de vivência, rodas de diálogos, mesas
de discussão, oficinas, festas e ato pelas ruas da cidade de Niterói

A democratização da comunicação foi o centro das discussões do Encontro,
e um dos pilares para o evento ser sediado no Rio de Janeiro. Segundo os
organizadores o fato do maior oligopólio de comunicação do país, as
Organizações Globo, estar localizado no Rio de Janeiro contribuiu para que o
estado  sediasse o Encontro.

Na quarta-feira (23) uma manifestação dos
estudantes parou as ruas do centro de Niterói. Inicialmente o ato pela
democratização da comunicação seria na Lapa, no Rio de Janeiro. Mas devido à
falta de infra-estrutura para levar os manifestantes até lá, a organização
optou por realizar a passeata pelas ruas de Niterói. O ato mobilizou cerca de
duzentos estudantes que saíram do campus do Gragoatá e seguiram até o centro de
Niterói, distribuindo panfletos para a população.

Com jets, stencil e criatividade os
manifestantes coloriram as ruas por onde passavam. Com desenhos e frases os
estudantes questionaram a política de segurança pública que adota o
enfrentamento direto como solução à criminalidade. A ANATEL que legisla em
causa dos grandes oligopólios de comunicação e impede o direito de livre
expressão das mídias comunitárias, como as rádios. Além disso, os estudantes
dialogaram com a população de Niterói sobre a fusão da Brasil Telecom e a Oi
Telemar e apoiaram as causas dos índios guaranis, que tiveram a reserva
incendiada na região oceânica de Niterói. Dois índios estiveram presentes no ato
representando os integrantes da aldeia destruída.

A expressão por dizeres como “Odeia a
mídia, seja a mídia”, caricaturas do Capitão Nascimento segurando flores no
lugar de fuzil e a exaltação da cultura popular brasileira por ilustrações que
remetiam a rodas de capoeira, marcaram a passagem dos estudantes pelo centro de
Niterói. 

Os espaços de vivência foram os destaques
do ENECOM. Os participantes conheceram projetos como a Escola Popular de
Fotógrafos no Complexo da Maré, O Jongo da Serrinha no Morro da Serrinha em
Madureira, a sede do jornal alternativo Fazendo Média no centro do Rio, a Rádio
Comunitária no Morro do Estado e o Quilombo das Guerreiras Na Zona portuária do
RJ. A estudante de Jornalismo da UFMG, Mariana Congo Ezidora , 21, disse que
foi uma experiência única. “Nunca tinha subido num morro, foi importante ver
como eles se organizam cultural e socialmente”. Mariana ainda ressaltou a
importância do evento ser sediado no Rio de Janeiro. “O Rio é uma explosão cultural
e contribuiu muito o fato do encontro ser aqui para aproximar os estudantes de
uma realidade que não é a vendida pela mídia.” afirmou Mariana.    

As mesas de debates que discutiram temas
como Educação Popular e Comunicação dialogaram com os estudantes e fomentaram
discussões. O coordenador do Observatório Jovem e Professor da Faculdade de
Educação da UFF, Paulo Carrano foi um dos palestrantes da mesa sobre Educação
Popular. A qualidade do ensino nas Universidades e as propostas do Reuni foram
questões colocadas pelo público aos palestrantes. De acordo com a organização
mais de cem estudantes participaram da mesa sobre Educação.

A
programação diária era encerrada com festas que propunham uma integração maior
entre os estudantes. Tropicália, samba de roda, gafieira, funk, hip hop,
maracatu, rock e reggae deram o tom das seis noites de ENECOM no Campus do
Gragoatá. Mas a proposta de divertimento e confraternização foi abalada na
noite de terça-feira (22) por volta das 22 horas, quando o estudante de
História da Universidade Federal Fluminense (UFF) Glauber de Oliveira Montes,
24, foi agredido pelos seguranças que ficam na portaria do Campus Gragoatá.

Segundo o estudante, o segurança que não
se identificou, começou a agredi-lo verbalmente após vê-lo entregar, pela cerca
do Campus, o crachá de identificação para que uma amiga pudesse entrar na festa. De acordo com Glauber, o segurança após a
discussão ordenou  que o estudante se
retirasse da portaria, o rapaz alegou que não sairia. Foi neste momento que, de
acordo com o universitário, o segurança aplicou um golpe desequilibrante, que o
derrubou no chão, provocando esfolamento no cotovelo e luxação no tornozelo.
Glauber afirmou que se levantou do chão e pediu novamente a Identificação do
guarda para levar o seu nome a Organização e não foi atendido. “O segurança
disse que ele mesmo me conduziria até a Organização do evento, foi quando me
conduziu por um caminho escuro e me agrediu novamente.” O estudante disse que
nesta segunda agressão perdeu documentos (Habilitação, CPF e a carteira de
alimentação do restaurante universitário) e que só não apanhou mais porque
conseguiu correr.

A Organização do Encontro disse que o
evento era fechado e que só permitia a entrada de estudantes da UFF e alunos de
outras Instituições matriculados no curso de Comunicação com a apresentação da
carteira estudantil. A Comissão Organizadora afirmou ter lamentado o fato, e
que prestou toda a assistência necessária para que no dia seguinte Glauber
fosse até a Delegacia prestar queixa contra o agressor. Mas que não pode se
responsabilizar diretamente pelo ocorrido, uma vez que a agressão partiu dos
seguranças contratados pela própria Universidade para assegurar o patrimônio do
Campus do Gragoatá.

O universitário agredido não culpou a
Organização do Encontro pelo ocorrido, mas alegou que faltou durante o evento
um membro da equipe para acompanhar a entrada das pessoas na festa. Glauber já
levou o caso para um advogado que analisará a melhor forma de proceder.

De modo geral a Organização e os
participantes do Encontro tiveram uma avaliação positiva do evento. O medo e a
insegurança de organizar um encontro nacional que na última edição, em 2006, na
cidade de Salvador (BA), teve uma critica negativa foram superados. Uma equipe
composta em grande parte por membros recém chegados ao movimento estudantil
mostrou estar disposta a suar a camisa em pró da Comunicação. 

Conheça o site e o Blog do Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação.

1968: entre a política e a cultura, jovens mudaram o mundo

 A moda como forma de expressar os ideais de jovens. 

Minissaia, calça Lee e sandálias franciscanas. De  indumentária despojada os jovens rebeldes de 68, se inspiravam nas idéias de Guy Debord, Jean Paul Sartre, no cinema da Nouvelle Vague, na música dolorosa de Janis Joplin e nos ideais revolucionários marxistas. De Norte a Sul do mundo, jovens clamavam por liberdade, independência em relação aos valores dominantes e igualdade. A efervescência política, cultural e comportamental marcou o ano de 1968

 

 

Os jovens mostraram de maneira inédita que podiam também ser protagonistas da História e mudar os valores da sociedade conservadora. Pílula anticoncepcional, luta estudantil, experimentação de drogas, rock e sexo sem culpa, são apenas algumas palavras-chave que definem o ano do “êxtase da História”, segundo o sociólogo francês Edgar Morin

Os jovens e a política no mundo

Num cenário tumultuado, o ano de 68 apresentou mudanças bem definidas no panorama político. Nos Estados Unidos a morte de um líder foi o estopim de mudanças. O pastor Martin Luther King liderou através da resistência pacífica a luta dos negros pela conquista dos direitos civis e o fim da segregação racial. Um outro movimento conhecido como Panteras Negras, também reivindicava pela igualdade de direitos, porém, lançava mão de ações agressivas contra o sistema de dominação branca. Os panteras tornaram-se mundialmente conhecidos nos Jogos Olímpicos do México, quando dois corredores americanos subiram ao pódio usando luvas pretas, e ergueram os punhos cerrados num gesto característico do movimento. Mas foi o trágico assassinato de Martin Luther King, que provocou o fim dos mecanismos de segregação racial inscritos na Constituição norte-americana.
Uma série de protestos eclodiu com a crescente participação dos Estados Unido Execução de um guerrilheiro vietcongs na Guerra do Vietnã. Cerca 40 mil soldados americanos morreram num ataque ao exército norte-vietnamita, em 1968. O episódio ficou conhecido como Ofensiva do Tet. A resposta da população as mortes de seus conterrâneos e as bombas de napalm lançadas pelas forças americanas na Indochina, vieram sob a forma de rejeição dos jovens à sociedade vigente na época. Nasce o movimento hippie, a contracultura que repudia a cultura de massa e instituições vistas como repressivas como, por exemplo, a família. “Se a sociedade americana era capaz de cometer um crime daquele vulto, atacando uma pobre sociedade camponesa no sudeste asiático, ela deveria ser rejeitada”, diziam os hippies.                                                                

Na Europa a atmosfera de insatisfação com a política implementada por alguns países, também incitou uma onda de protestos. Na antiga Tchecoslováquia um movimento composto por intelectuais reformistas do Partido Comunista Tcheco, interessados em “desestanilizar” o país, e remover vestígios de autoritarismo e despotismo que eram incompatíveis com a proposta do socialismo, ficou conhecido como Primavera de Praga. A breve experiência de uma “democracia”, comandado por Alexandre Dubcek na Tchecoslováquia, foi esmagada pelos tanques soviéticos sete meses após a sua implantação. Apesar de derrotado o movimento contribuiu para enfraquecer o bloco comunista liderado pela União Soviética, e as idéias defendidas pelos intelectuais de Praga foram resgatadas 20 anos depois com a criação da glasnost (transparência política) de Michail Gorbachov.

Na antiga Tchecoslováquia as manifestações eram contrárias ao comunismo ortodoxo, e se aproximavam cada vez mais de ideais sociais-democráticos aos moldes ocidentais. Em entrevista ao jornal O Globo, o historiador da UFRJ Carlos Fico fez uma análise sobre “o ano que não acabou. Fico salientou que na França há uma certa utopia socialista com a união estudante-trabalhador que acreditava ser capaz de derrubar o governo de Gaulle. Foi em Paris onde a expressão maio de 68 se consagrou.

Estudantes protestam nas ruas parisienses. PARIS, março de 1968. Estudantes parisienses descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura acadêmica conservadora organizam protestos que levam a ocupação da Universidade de Nanterre. A atitude agressiva da polícia para conter os estudantes gera revolta que contamina a Universidade de Sorbone e a população. Os motivos de protesto ganham dimensão nacional. Os manifestantes contestam o governo de Charles de Gaulle. Uma greve geral mobilizou 10 milhões de franceses. O país parou: não havia mais trens, metrô, combustível e as fábricas fecharam as portas.

Foi nessa conjuntura que surgiu a figura de Daniel Cohn-Bendit, ex-líder estudantil e atual deputado do Parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Em 68, Cohn-Bendit liderou cerca de 10 mil estudantes da Universidade de Nantarre e Sorbone nas chamadas “barricadas” em que estudantes e polícia se enfrentavam diretamente. Os protestos logo se alastraram por toda a França e conquistaram adeptos que não tinham vínculo com a Universidade. Uma greve geral de 24 horas parou Paris no mês de maio. Os manifestantes criticavam nas ruas a política trabalhista e educacional do governo de Gaulle. Para se ter uma dimensão da greve, cerca de seis milhões de trabalhadores ocuparam 300 fábricas na França.

O espírito revolucionário do movimento estudantil, amparado nas ideologias de grupos maoístas, trokistas e libertários iniciou uma batalha em que as maiores “armas” foram as palavras. Com slogans expressivos como “É proibido proibir”, “Sejam realistas, peçam o impossível” e “E abaixo a sociedade de consumo” os jovens franceses romperam barreiras territoriais e influenciaram jovens de todo o mundo a se rebelarem contra os “padrões” conservadores da época.

No livro recéDaniel Cohn Bendit nos tempos de líder estudantil em Paris.m lançado na França É proibido liquidar o espírito de maio? O ex-líder estudantil Cohn-Bendit   salienta a importância de 68 no terreno político, para ele a sociedade evolui no conceito de liberdade e de autonomia do individuo e um dos principais frutos, segundo Bendit, foi o movimento ecologista. O atual deputado ainda reforça a idéia de que os problemas da sociedade não podem ser solucionados por receitas prontas da esquerda, ou fórmulas mágicas da direita, mas sim, através de uma convergência entre os vários campos políticos.

 No Brasil


No Brasil, o ano de 68 foi marcado pelo recrudescimento da ditadura militar devido ao Ato Institucional n0 5 (AI-5), durante o governo de Arthur da Costa e Silva. O assassinato do estudante Edson Luís no restaurante universitário Calabouço no Rio de Janeiro, marcou o período de intensas mobilizações contra o governo militar. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o enterro do estudante, que passaria para a História como sendo um dos principais símbolos das atrocidades cometidas nos Anos de Chumbo.

RIO DE JANEIRO, 26 de junho. Era uma tarde de quarta feira fria e com o sol fraco, quando o movimento estudantil, intelectuais, artistas, padres e mães se reuniram na Candelária, centro do Rio, em resposta à morte de Edson Luís. Os manifestantes davam o “tom” do maior protesto contra o regime militar no país, era a Passeata dos Cem Mil. “A marcha” foi tão forte que o próprio general Costa e Silva precisou abrir espaço para o diálogo.

Em julho, o então general e presidente liberou fundos para o desenvolvimento do Projeto RonVelório do  corpo do estudante Edson Luís.don e recebeu uma delegação que reivindicava pela liberação de estudantes presos, a reabertura do restaurante Calabouço e o fim da repressão policial e de toda espécie de censura. “Saímos daquela passeata com a certeza da vitória, achando que a ditadura iria recuar”, lembra Ernandes Fernandes que assina o projeto gráfico do livro 68 Destinos do fotógrafo Evandro Teixeira e participou da Marcha dos Cem mil. O livro buscou reencontrar 40 anos depois, 68 rostos que foram contemplados pelas lentes do fotojornalista.

A abertura de um diálogo por parte do presidente foi apenas uma ilusão de que a ditadura “afrouxaria” as suas amarras. As exigências dos integrantes da passeata foram recusadas e o Ministro da Justiça Luis Antonio da Gama e Silva foi encarregado de tomar as medidas para reprimir a oposição e proibir qualquer manifestação contra o regime dos generais. 

Os jovens não deixaram de se organizar mesmo com a legitimação da repressão militar após a Passeata dos Cem Mil. Em outubro, dois meses antes da instauração do AI-5, os estudantes se reuniram em Ibiúna, interior de São Paulo, para o 30º Congresso da União dos Estudantes. Com forte marcação no movimento estudantil, a polícia descobriu a sede do encontro e prendeu cerca de 800 estudantes. Entre os presos estavam José Dirceu, Franklin Martins, Vladimir Palmeira e Luiz Travassos.

O Ato Institucional Número 5 foi promulgado em dezembro de 1968 como forma de conter a forte agitação Passeata dos cem mil no centro do Rio de Janeiro.política da população. Foram tomadas medidas polêmicas como o fechamento do Congresso Nacional por tempo indeterminado, a suspensão da possibilidade de qualquer reunião de cunho político e a censura prévia que se estendeu aos meios de comunicação, a música, ao teatro e ao cinema. O AI-5 vigorou até 1978 e produziu uma série de ações arbitrarias que davam ao governo o "direito" de punir os que fossem considerados “inimigos” do regime. O enfrentamento entre a esquerda armada e os militares tornou-se mais constante e violento nesse período. A expressão Anos de Chumbo foi usada pela Imprensa da época para designar o período da “linha dura” que foi inaugurado com o AI-5. A designação é uma paráfrase do título de um filme em português da cineasta alemã, Margareth Von Trota, sobre a repressão de um grupo revolucionário nos anos 70, conhecido como Facção do Exército Vermelho.

Com o endurecimento do regime a luta armada foi vista como a opção para setores mais radicalizados da esquerda da época. O historiador Carlos Fico, já citado, disse que a esquerda era muito idealista e por isso optou pela guerrilha urbana e rural. “Havia uma perspectiva muito ingênua, que era a de se contrapor ao Exército supondo que o povo acorreria para suas idéias”, disse Fico. Ele ainda afirma que essa perspectiva prevaleceu devido a um ideal romântico da juventude que se inspirava na recente vitória da Revolução Cubana para mudar o cenário político vigente na época.

A energia revolucionária que desabrochou há quatro décadas no Brasil e no mundo divide opiniões. Ex-guerrilheiro de esquerda durante a ditadura militar e atual deputado federal pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, tem uma visão nada vanguardista em relação ao ano de 68 no Brasil. Gabeira disse a Revista Época que se arrepende de muita coisa, principalmente do seqüestro do embaixador americano pelo MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro). “A busca pela implantação do socialismo, a luta armada o seqüestro do embaixador americano foram grandes equívocos”, salienta o deputado. “Eu gostaria de sepultar esse período”, completa. Hoje com 66 anos Gabeira tem uma visão pragmática da política. Segundo ele a luta armada não só fortaleceu a ditadura, como deu de bandeja um pretexto para que o Presidente Arthur Costa e Silva promulgasse o Ato Institucional número cinco em dezembro de 1968.

Por outro lado há aqueles como o ex-líder do movimento estudantil José Dirceu que acreditam que o mundo seria muito pior hoje se o 68 não tivesse acontecido. Dirceu diz que os principais protestos civis da História recente do país só ocorreram porque o caminho foi traçado pelos rebeldes da sua geração. “Seriam exemplos dessa herança contestatória a campanha das Diretas Já e os Caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello”, afirma Dirceu.

O ano em que a ditadura mostrou sua face mais sombria não foi contestado apenas com a luta armada por parte da esquerda. Os primeiros passos de muitos dos atuais representantes da política nac A repulsa à ditadura.ional foram dados nos palanques de sindicatos, nas salas de aula das Universidades e em sítios clandestinos no interior de São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um exemplo. Em 1968 ele se filia ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Com o passar dos anos, a sua atuação como sindicalista o tornaria uma figura nacionalmente conhecida. Outro exemplo foi em Ibiúna, interior de São Paulo, onde ocorreu o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes. Na época José Dirceu foi preso e incluído na lista dos que foram trocados pelo embaixador americano Charles Burke Ellbrick. Sociólogo de influência marxista e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, acabou impedido de lecionar no curso de Ciência Política na USP,  foi aposentado e exilado pelo AI-5.

Uma análise mais atual da conjuntura política do Brasil de 1968, feita pelo historiador Carlos Fico mostra que os dois setores, tanto esquerda quanto os militares tinham projetos autônomos de constituição das suas ideologias. Segundo Fico, o AI-5 é a vitória da linha dura que acreditava que uma operação radical de limpeza, eliminando os subversivos e o que entendiam por corrupção, transformaria o Brasil em uma grande potência. Já a esquerda, de acordo com Fico, queria optar pela luta armada e pela tomada do poder para a instalação de um regime socialista, mesmo antes do golpe. “Esses dois projetos não tinham perspectivas democráticas”, conclui o historiador.


 Cultura e Comportamento

 Mundo

Os protestos e manifestações marcaram o cenário político de 1968 em muitos países. A juventude tornou-se mais integrada e começou a intervir na forma de pensar e agir de toda uma geração. O “espírito libertário” traduzido por numa cultura underground não só criticou os governantes e a política adotada por eles, mas também o tradicionalismo dos valores familiares que ditavam as regras e normas.

Contagiado pela onda de contestação, o movimento feminista nos anos 60 foi às ruas não só para queimar sutiãs como forma de protesto contra a condição subalterna em relação aos homens. Mas principalmente para defender que a hierarquia de sexo não era uma fatalidade biológica, e sim uma construção social. O feminismo foi um dos primeiros movimentos a tocar na raiz cultural da desigualdade.

A atitude da mulher do final dos anos 60 refletiu diretamente no seu guarda-roupa. A mudança mais emblemática desse período foi a criação do smoking para mulheres do estilista francês Yves Saint Laurent (1936-2008). O “le smoking” foi uma provocação sexual dirigida à mulher que queria independência.

A expansão deA liberdade comportamental dos jovens hippies consciência pelas drogas, a luta pela paz, a liberdade sexual, o amor livre e a valorização da natureza. Esses foram apenas alguns dos itens defendidos pelo movimento mais expressivo da contracultura, que revolucionou a maneira de pensar e agir dos jovens de todo o mundo. Com trajes que chocavam os americanos médios da época, barbas e cabelos compridos, diversos jovens de diferentes níveis sociais rejeitavam a sociedade de consumo norte-americana e passavam a viver em comunidades rurais ou em bairros separados onde todos os “ditames” capitalistas eram deixados de lado. Os hippies não se caracterizaram por uma postura política engajada, eram contra "o sistema" e o "poder", pregavam o pacifismo e criticavam a intervenção militar, principalmente a Guerra do Vietnã, porém não mostravam grande interesse em alterar os rumos políticos dos EUA.

A explosão do movimento hippie abriu portas para a entrada de novos conceitos que redefiniram estéticas e padrões. A globalização começou a mostrar que a passos largos deixaria as “comunidades igualitárias” dos hippies para ganhar o mundo, e por “ilusão do destino”, se tornar um dos maiores símbolos do capitalismo contemporâneo. Um exemplo da ruptura de padrões foi a filosofia oriental que passou a ser mais valorizada pelo Ocidente. Religiões consideradas esotéricas como o budismo e o hinduismo foram fundamentais para a “desconstrução” da moral do americano médio. 

Os hippies exaltavam o uso de determinadas drogas como o LSD, a maconha e o haxixe. Eles acreditavam que a maconha possuía um caráter espiritual, principalmente por ser proveniente da natureza. Já o LSD, era mais conhecido por ser uma droga recreativa, usada para expandir a consciência. Segundo Timothy Leary (1920-1996), pioneiro e defensor do uso do ácido psicodélico e muito admirado pelos hippies, a experiência psicodélica era uma viagem ao novo domínio da consciência. Para Leary, o alcance e conteúdo da experiência são ilimitados, mas as suas características são a transcendência de dimensões do espaço-tempo, e do ego ou de identidade. Celebridades como John Lennon foram influenciadas pelas obras literárias de Timothy. Lennon escreveu “Amanhã nunca se sabe” que foi lançado no álbum dos Beatles Revolver baseado em O psicodélico: A experiência, de Leary.

Curioso também foi o que Abbie Hoffman, conhecido como o maior símbolo da contracultura nos EUA, fez junto com outros hippies no Dia dos Namorados de 67. Hoffman enviou pelo correio três mil baseados de maconha para moradores de New York, escolhidos aleatoriamente pela lista telefônica. Junto à marijuana havia uma carta que dizia: “Você já leu muito sobre isso, agora se quiser experimentar, aqui está. Mas, ps: apenas por segurar isso você pode pegar cinco anos de prisão”.

Toda essa inquietação e ousadia se transformaram em epidemia que varreu o universo aJimi Hendrix e seus memoráveis showsrtístico sem limites. Cinema, música e teatro tornaram-se os primeiros meios a compreender a nova forma de expressão dos calorosos jovens de 68. Na música, Jimi Hendrix levou os seus ouvintes a um passeio pelo mundo das percepções expandidas, suas performances agressivas com sexualidade explícita aliada a sua maneira única de tocar guitarra, chocou até quem já estava familiarizado com as “loucuras” da juventude.

Em entrevista ao jornal O Globo, Ezequiel Neves, crítico de música em 68 e mais tarde produtor do Barão Vermelho e Cazuza falou da sua “experiência” com Hendrix. “A sensação era a mesma de que ficar em frente a um animal selvagem. Eu achava que estava preparado, sabia de todas as histórias, que botava fogo na guitarra, mas, ali, solto no palco, era amedrontador. Foi como um estupro, provocava um curto-circuito na gente, com sua carga explosiva de musicalidade e sexualidade”, disse Neves. Hendrix causou polêmica até na sua morte. O cantor foi encontrado morto asfixiado em seu próprio vômito.

A predileção dos jovens de 68 pela irreverência não está só na “animalidade” de Hendrix, na voz melancólica de Janes Joplin ou na mistura de gêneros do Led Zeppilin. O escandaloso musical Hair estreou no teatro da Broadway em 1968. Com cenas de nudez, apologia às drogas e estética hippie, o musical tornou-se símbolo e influência para toda uma geração, que não se restringia somente aos Estados Unidos. As montagens da peça foram feitas também no Brasil, na Alemanha, Israel, França e Japão.

O palco e as telas foram os primeiros a entender e refletir o anseio dos jovens que estavam por trás de  O cineasta francês Jean Luc Godard.slogans como: “Sejam realistas. Peçam o impossível”. Se de um lado Jimi Hendrix fazia o inimaginável nos palcos, do outro Godard desconstruia o cinema clássico narrativo com montagens descontínuas e dilemas do século XX. Os jovens franceses se identificavam muito com o cinema chamado de Nouvelle Vague, os principais representantes desse movimento eram Jean-Luc Godard, François Truffaut, (1932-1984) e Claude Chabrol. Esta nova forma de fazer cinema surge na França e se caracteriza por uma rejeição ao cinema comercial e a toda sua estrutura. Os cineastas, assim como Hendrix, provocavam o público através do experimentalismo que questionava o limite existente entre a tela e o espectador.

Não só de experimentalismo foi a Nouvelle Vague. A política foi o alvo de cineastas como Godard que após o movimento estudantil de maio de 68 criou o grupo Dziga Vertov (nome do cineasta russo criador do cine-olho e precursor do chamado cinema verdade). No grupo de Gordad participou o ex-líder estudantil francês Cohn-Bendit que chegou a colaborar com um roteiro. Filmes como Pravda (1969) abordavam a invasão soviética na Tchecoslováquia, outros como Week-end à Francesa (1967) acabou com a moral da sociedade consumista. Godard é considerado um dos principais personagens do cinema em 68, segundo o jornalista Zuenir Ventura, o filme A Chinesa (1967) foi uma revolução na linguagem cinematográfica que prenunciou o maio de 68.

 Brasil


Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Chico Buarque na música, Hélio Oiticica e Lygia Clark nas artes plásticas, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla no cinema, Ferreira Gullar na poesia, Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa no teatro. Esses foram apenas alguns dos nomes presentes até hoje na cultura brasileira que deram “o rosto” ao movimento da contracultura no país. Repletos de criatividade, esses vanguardistas driblaram e enfrentaram a censura para cantar, representar e escrever. O ano de 68 foi “emblemático”, passou para o Brasil como o período de maior e melhor produção de conteúdo artístico, ao mesmo tempo que é lembrado pelo lado mais obscuro da política nacional.

Considerado o gesto inaugural da contracultura no Brasil, a Tropicália teve o seu lançÁlbum Tropicália ou  panis et circenseamento com o disco-manifesto “Tropicália ou panis et circense” em 1968, participaram do movimento Gil, Nara Leão, Caetano, Os Mutantes e Tom Zé. A mistura do clássico com o baião, do progresso com o atraso e a polêmica causada pelo movimento começou em 1967 durante o III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. As apresentações de Domingo no parque (Gilberto Gil) e Alegria, Alegria (Caetano Veloso), não agradaram nem um pouco a “linha dura” do movimento estudantil que considerou a guitarra elétrica e o rock símbolos do imperialismo norte-americano.

O confronto entre tropicalistas e estudantes foi pior durante uma apresentação no III Festival Internacional da Canção, no teatro da Universidade Católica de São Paulo. No palco com os Mutantes, Caetano cantava a canção É Proibido Proibir, quando foi agredido com ovos e tomates por estudantes radicalistas que estavam na platéia. O compositor reagiu, e desafiou os jovens: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

 A influência do movimento também ficou evidente em dezenas de canções concorrentes no IV Festival de Música Popular Brasileira , que a TV Record começou a exibir em novembro. As canções de Tom Zé como São São Paulo, O Parque Industrial e 2001 além de terem ótimas colocações nos festivais, compunham o retrato alegórico de um país ao mesmo tempo moderno e retrógrado

O movimento antropofágico de Oswald de Andrade, o concretismo e o pop art influenciaram a criação da Topicália. A idéia do Antropofagismo de “digerir” a cultura exportada dos Estados Unidos e Europa e reinventá-la aos moldes nacional foi o fundamento do movimento. Os tropicalistas acreditavam que a experiência estética por si só já era um instrumento social revolucionário. Membro do movimento, Torquato Neto resumiu a importância da estética para os vanguardistas, “ou você mexe com a forma ou não mexe com nada”, disse o músico.

O jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do jornal O Pasquim, tem dúvidas quanto à relação direta entre tropicalismo e contracultura. “Embora não se possa fazer a relação tropicalismo contracultura, a Tropicália usou uma liberdade que era sugerida, nas roupas, nas atitudes, no palco e no próprio espírito que animou muitas músicas”, afirmou Maciel. É inquestionável a revolução de padrões que o tropicalismo causou na sociedade brasileira. Em entrevista a Marcelo Tas no site UOL, o jornalista e autor do livro Tropicália - A História de uma Revolução Musical , Carlos Calado disse que o movimento foi uma idéia de se captar um pouco de tudo o que acontecia no mundo em 68. “Na verdade foi um espírito de uma determinada época”, ponderou Calado.

A música não foi o único universo por onde a Tropicália “fincou” raízes. O tropicalismo influenciou e foi influenciado também pelo cinema, pelas artes plásticas e pelo teatro. O filme Terra em Transe, por exemplo, de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de José Celso Martinez Corrêa, tocou Caetano Veloso que acreditou existir nessas montagens algo de “vivo” que merecia ser explorado na música.

Ao poucos Glauber, Oiticica e Martinez Corrêa aderiram a corrente tropicalista, e peças como Roda Viva de Chico Buarque viraram escândalo de montagem e bilheteria. A atriz Marilia Pêra era uma das estrelas da peça e em depoimento a Revista Época contou sobre a sua participação e a repressão pelo Comando de Caça aos Comunistas que os atores sofreram por encenar o espetáculo. “Eu não era nem de esquerda e nem de direita e mesmo assim entraram 50 homens na minha casa para me prender”, contou Marilia, que foi presa duas vezes e chegou a ser obrigada a passar nua por um corredor polonês durante uma das incursões dos militares ao Teatro Ruth Escobar.

O filme marco do cinema marginal.Em 68 Glauber Rocha já era o maior cineasta brasileiro, no entanto o longa-metragem mais emblemático da contracultura pertence a Rogério Sganzerla. O filme O bandido da luz vermelha (1968), ousou ir além da estética proposta pelo Cinema Novo e lançou um novo estilo, o Cinema Marginal. Sganzerla, na época com apenas 22 anos, queria fazer um filme que fosse ao mesmo tempo revolucionário e de grande êxito comercial. “Existe um humor cáustico e oswaldiano forte em sua obra”, disse Helena Ignez que participou do elenco e mais tarde tornou-se mulher de Rogério. Apesar de diferenças estéticas Glauber e Sganzerla tinham aproximações.

A grande mídia ao fazer uma retrospectiva do cinema brasileiro de 68 enfatizou apenas o Cinema Novo e Marginal e se esqueceu de realizações simbólicas como: Como vai, vai bem? (1968), do grupo Câmara. Por ir na contra-mão do cinema novo ao não exaltar o lado trágico da pobreza, mas sim mostrar o lado cômico dos típicos personagens populares como o calouro do Chacrinha, o travesti e o fanático torcedor do Flamengo, tais realizações não foram lembradas pelos Segundo Caderno, Caderno B e Ilustrada, mas a importância desses filmes, não deixa de ser celebrada em circuitos alternativos como o cine clube sala escura da Universidade Federal Fluminense, que exibiu o filme em comemoração aos 40 anos de maio de 68.

O Grupo Câmara era formado por jovens da esquerda de diferentes tendências que queriam mostrar o universo dos pobres. O diretor de Como vai, vai bem? E um dos fundadores do grupo, Alberto Salvá, disse que o filme foi boicotado pelo cinema novo. Por ter um “tom” de comédia, muitos consideraram o filme sem um conteúdo crítico. Membro do antigo Grupo Câmara, Daniel Chutorlanscy salienta: “No meio de uma ditadura fazer um filme com este nome e a censura não barrar, por si só já foi uma critica”. O Professor do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense, José Carlos Monteiro, ressaltou a importância de Como vai, vai bem? Para revelar o cinema carioca e consolidar o universo alternativo em relação o cinema novo.

A genialidade de Chico Buarque de Hollanda que se destacou de inicio como autor de Chico Buarque de Holanda e o  MPB4. Roda Viva em 68, começa a dar os primeiros passos rumo à música. Durante os Anos de Chumbo, Chico destaca-se pelo tom político que empresta a sua obra. Músicas como Apesar de você e Cálice (parceria com Gilberto Gil) afrontaram a Ditadura militar e o presidente Médici. Para driblar a censura que endureceu a tal ponto de vetar qualquer publicação que tivesse o nome Chico Buarque, o compositor passou a assinar as músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, composições como Jorge maravilha e Acorda Amor nos anos 70 passaram pelos censores sem restrições, só anos depois foi descoberto o verdadeiro autor.

O ano de 1968 é paradigmático por acontecimentos inéditos que mudaram o curso da História Contemporânea, por demonstrar a conexão dos fenômenos sociais de um mundo que já se encontrava globalizado. Mas principalmente por confirmar que os campos da política e da cultura, ainda que relativamente autônomos, são interdependentes entre si.

A releitura do passado mostra também que as mobilizações não eram “da juventude” como um todo, mas sim de grupos de jovens e vanguardas artísticas, culturais e políticas. É por isso que deve-se desconfiar das análises anacrônicas que mitificam a “juventude de 68” - uma minoria significativa e mobilizada - comparando-a com  a "juventude de hoje" (todos os jovens?) que seria mais apática, consumista e alienada.

Um artigo sobre um ano tão contraditório e efervescente que legitimou todo o ideal dos chamados jovens rebeldes, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo; jovens  que foram às ruas contra os governos, pegaram em armas contra a ditadura, defenderam os direitos de minorias e o meio ambiente; praticaram sexo livre, usaram drogas; abusaram da irreverência e desmascaram a hipocrisia da sociedade conservadora, merece ser concluído com duas provocações que podem ajudar a traduzir o espírito libertário daquela época. Assim, pergunta-se: o quê fere mais o autoritarismo: a pedra que arrebenta as vidraças? Ou a poesia que arrebata multidões?

Saiba mais sobre 68:
Cinema:
filmes sobre 68.pdf
 
Jornais:
Entenda o maio de 68-Folha Online 
Quem mantém a chama libertária- O Estadão 
40 anos de maio de 68- Portal G1 
Arquivo N- Globo news 
Quem dá mais?-Jornal do Brasil
Especial Maio de 68-Folha Online
* Jaqueline Deister é aluna do Curso de Jornalismo da UFF e bolsista do Observatório Jovem do Rio de Janeiro/UFF

Conferência Nacional de Juventude

 
De 27 a 30 de abril, Brasília foi o cenário da primeira Conferência Nacional de Juventude. Jovens de todas as regiões do Brasil compareceram munidos de crenças ideologias, propostas e expectativas para discutir políticas públicas para este segmento.

Somando-se os envolvidos nas etapas anteriores (Conferências Livres, Municipais e Estaduais) à etapa Nacional, chegamos ao total de 406 mil participantes. Brasília recebeu cerca de 2.400 participantes, entre delegados e convidados.

 

 

O primeiro dia foi marcado pela ambientação. Reconhecimento do espaço, identificação de alianças possíveis para o trabalho de reportagem que iríamos desenvolver. O problema com o credenciamento persistiu, mas as experiências anteriores nas etapas estaduais e municipais serviram como treinamento e amenizaram a questão.

 

 A mesa de abertura da Conferência foi composta por membros do governo e a Vice-Presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), Maria Virgínia Freitas, representante da sociedade civil no conselho. A importância do evento e o caminho percorrido por jovens de antes e pelos de hoje para chegar neste ponto foram os principais destaques das falas. Maria Virgínia que coordena o Programa Juventude da Ação Educativa, destacou o novo papel do jovem como sujeito de direito, com especificidades diferentes de adultos e crianças, necessitando por isso de políticas próprias. O Presidente do Conjuve, Danilo Moreira, considerou inovador e mobilizador o sentido da Conferência. Afirmou que esta poderia ser transformadora, à medida que a sociedade civil saia mais atenta e informada ao final da discussão. Por fim, conferiu aos jovens a função de torná-la um sucesso. Marina Silva, até então Ministra do Meio Ambiente, fez referência à importância de, “outros jovens que souberam desafiar o sistema para chegarmos aqui hoje”. Os jovens militantes das décadas de 60 e 70 também foram lembrados por demais integrantes da mesa. Marina ainda ressaltou a necessidade da construção coletiva e intersetorial das políticas públicas, por jovens, governo e sociedade civil. “O que estamos fazendo aqui é política transversal”, disse.

 

Durante a mesa de contextualização que se seguiu, questões como: por que fazer políticas públicas pra juventude e o que se compreende por políticas públicas de juventude foram levantadas, seguidas de breves análises. Mas para se chegar a esse ponto, primeiro foi ressaltante a importância de se trabalhar o conceito de juventude A ex-presidente do Conjuve, Elen Linth, bastante aplaudida pelos presentes, afirmou: “Precisamos quebrar paradigmas de juventude estereotipada para poder diolagar de fato. Devemos conseguir olhar para além da condição própria, de negro, de mulher, de indígena, deficiente”. A leitura do regimento foi realizada num momento esvaziado pela fila do jantar. Desse modo ficou uma sensação de leitura apressada que precisava ser feita para que se cumprisse o ritual. 

 

 A noite terminou com música, enquanto uns assistiam ao show de Fernanda Porto, outros se divertiam ao som de Funk em uma tenda do lado de fora. Tão diferentes quanto os gostos musicais, as roupas, cabelos e sotaques pareciam anunciar a pluralidade de posições que se apresentaram no decorrer da conferência. Os jovens da região nordeste adotaram o uso de chapéu de palha como seu símbolo na Conferência

 

 Vinte e dois Grupos Temáticos ocupariam a segunda-feira, mas os organizadores não incluíram o GT Juventude do Campo, gerando certo mal estar. Uma sala improvisada foi a solução para acomodar os participantes, sem cobertura e sem ar condicionado. Cada um dos 23 GTs poderia tirar até quatro propostas sobre seu tema e mais duas gerais. Na terça-feira, sem espaço para debates, as 70 propostas mais votadas foram encaminhadas para votação no chamado momento interativo. O método foi o mesmo utilizado e criticado no Rio de Janeiro. Cada delegado tinha direito a dez bolinhas adesivas e poderiam colar até três em uma mesma proposta e dividir as demais entre as propostas restantes. Mas durante o início da votação não existia fiscalização. Alguns delegados colavam todos os adesivos em uma mesma proposta, outros tiravam de uma para por em outras, uma delegada que não quis se identificar, conta que perdeu seus adesivos e para poder votar retirou alguns de propostas que julgou ter muitos para colar nas suas. Membros da Comissão Organizadora, diante da cobrança de representantes da sociedade civil organizada, se isentaram desta responsabilidade atribuindo a responsabilidade pelo controle de fraudes na votação aos próprios delegados.

 

 Ao fim da votação as 18 propostas mais votadas foram automaticamente aprovadas. As três vagas que restaram seriam disputadas por votação entre as seis seguintes mais votadas. Em um dos momentos mais emocionantes da Conferência a proposta relativa ao GT dos jovens com deficiência, que não havia sido contemplada, foi aprovada por unanimidade. As vagas seguintes foram disputadas entre segurança, cultura e juventude rural. Diante de quase uma paridade entre os temas Juventude do Campo e segurança, o presidente do Conjuve decidiu aumentar de 21 para 22 propostas incluindo também a proposta referente à cultura. Sem mais discussões a terça-feira foi encerrada.

 

 O último dia de Conferência foi dedicado à votação de moções. Já em clima de despedida, delegações de vários estados confraternizaram deixando como marca da 1° Conferência Nacional o processo participativo marcado pela disposição de dialogar e construir juntos novo cenário político e social para os jovens e as jovens do Brasil, independente das dúvidas de muitos sobre os resultados concretos que possam ocorrer como resultado desta primeira Conferência Nacional.

 

 Veja aqui as resoluções e as prioridades da Conferência que serão enviadas a estados e municípios, ao congresso e ao governo Federal, que avaliarão as propostas.

Saiba mais sobre a 1ª Conferência Nacional de Juventude

 
Leia o relatório_final_do ENJUNE

É negado o projeto de legalização do aborto

foto: diálogo jovemA 11ª proposta prioritária estabelecida pela 1ª Conferência Nacional de Juventude: implementar políticas públicas de promoção dos direitos sexuais e direitos reprodutivos das jovens mulheres sofreu uma derrota no último dia sete. A Comissão de Seguridade Social e Família rejeitou o Projeto de lei que descriminaliza o aborto provocado pela própria gestante ou com o seu  consentimento. O Projeto dos ex-deputados Eduardo Jorge e Sandra Starling, teve rejeição absoluta. Foram 33 votos a zero 
   

Pelo Projeto aprovado fica mantido o artigo do Código Penal que prevê pena de um a três anos de reclusão para as mulheres que praticarem o aborto. As exceções são em casos de gravidez de risco para a mãe e estupro.Depois do resultado,o deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP) disse que a votação na comissão foi um reflexo da vontade popular, e que agora o governo deve pensar em políticas de saúde pública. As três audiências públicas no ano passado para discutir a legalização do aborto, ainda foram lembradas pelo deputado. 

    O Ministro da Saúde José Gomes Temporão que provocou o debate em 2007, ao defender a descriminalização do aborto como problema de ordem pública, preferiu não se posicionar diante do resultado da votação.  

   O Projeto segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, onde a tendência é que também seja rejeitado.  

    Para os jovens que participaram da 1ª Conferência Nacional de Juventude, a discussão sobre o aborto envolve muito mais do que apenas o direito de escolha. A temática aborda temas como política, cultura, cidadania além de saúde e educação.

   A integrante do movimento de jovens de Articulação Brasileira de Jovens Feministas, Andréia Augusta, afirma que a prática do aborto na maioria das vezes é recorrente de uma série de condições sociais que atingem a vida das mulheres, em sua maioria, jovens negras e de periferias. “A gente tem que pensar que o código civil brasileiro penaliza não a ação, mas sim a mulher. Quando eu assumo uma posição de ser a favor da legalização e descriminalização do aborto, eu afirmo que toda e qualquer mulher deve ter o direito de decidir sobre o seu corpo, sem levar em conta a religião, e as imposições que o Estado lança sobre nós mulheres”, disse a ativista.

   As influências religiosas são as principais barreiras para a descriminalização do aborto ainda hoje no Brasil. Segundo a ex-deputada federal e defensora do processo de legalização, Jandira Feghali, a questão de quando começa a vida, sustentada pelos grupos religiosos, é o pior debate, porque nem mesmo a teologia é uniforme ou unânime. Mas  para Jandira, a legalização é uma questão de tempo já que o debate está avançando mais na sociedade, do que no Congresso Nacional.
 
  Saiba mais sobre o tema:  

O ABORTO E A SUA LEGALIZAÇÃO
http://www.acidigital.com/vida/aborto/legalizacao.htm

PROJETO DE LEI Nº 1135/91 de descriminalização do aborto
http://www.cfemea.org.br/pdf/relatoriopl1135-91.pdf 

Cursos de Medicina são reprovados

Um levantamento feito pelo Ministério da Educação com 103 escolas de Medicina do país reprovou dezessete cursos com notas um ou dois no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), e no Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observados e Esperados (IDD)
 A avaliação cobriu instituições públicas e privadas do Brasil e mostrou que o nível da maioria dos cursos de medicina do estado do Rio são insatisfatórios.  Dos dezessete cursos considerados fracos, seis deles concentram-se na região do Rio de Janeiro. São eles: Centro Universitário Serra dos Órgãos, Universidade Severino Sombra, Centro de Ensino Superior de Valença, Centro Universitário de Volta Redonda e Universidade de Iguaçu, unidades de Itaperuna e Nova Iguaçu. 

Receberam conceito insuficiente também as Universidades Federais da Bahia, Alagoas, Amazonas e Pará. O MEC exigirá das instituições com resultado insatisfatório um diagnóstico sobre o desempenho, com medidas para sanar as deficiências identificadas. O diagnóstico deve abordar a organização didático-pedagógica; a integração do curso com os sistemas local e regional de saúde; o perfil do quadro discente; a oferta de vagas nos processos seletivos de 2008, com especificação daquelas ocupadas nos referidos processos e o número de concluintes em 2007; o perfil do quadro docente, incluindo titulação e regime de trabalho, composição e atuação do núcleo docente estruturante, colegiado e coordenação de curso; a infra-estrutura, com identificação das condições de oferta das disciplinas de práticas médicas, em especial o estágio curricular, condições da biblioteca e produção científica.

O presidente da comissão que auxilia o MEC na supervisão dos cursos de Medicina, Abid Jatene, apontou que o crescimento do número das escolas – que saltou de 80 em 1994 para 175 em 2008 –  foi um dos fatores que fez com que os métodos de avaliação fossem revistos. “No documento que dispõe sobre a autorização, por exemplo, foi acrescentado um item eliminatório: nenhuma instituição que não tenha um complexo médico-hospitalar ambulatorial que seja referência regional há pelo menos dois anos pode ter um curso de medicina”, disse Jatene. 

Caso as instituições não se adeqüem as exigências do MEC até o período de um ano, o Ministério da Educação poderá realizar visita ao curso e instaurar processo administrativo para aplicação de penalidades.As sanções incluem desativação de cursos e habilitações, suspensão temporária de prerrogativas de autonomia e da abertura de processo seletivo de cursos de graduação ou cassação do reconhecimento de curso. 

AS MELHORES

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi a que obteve melhor classificação do estado do Rio, recebeu nota máxima no ENADE. No entanto não foi avaliada pelo IDD. Já as Universidades Federais do Rio Grande do Sul, de Goiás, de Ciências da Saúde de Porto Alegre, de Santa Maria, do Piauí e do Mato Grosso receberam a nota máxima nos dois indicadores. 

Segundo o Ministro da Educação, Fernando Haddad a inspeção do Curso de Medicina seguirá processos semelhante aos já realizados nos cursos de Direito e Pedagogia. “O Ministério começou por esses cursos porque eles colocam em jogo a saúde e a educação pública”, ponderou o Ministro. 

AVALIAÇÃO
Porém, o ENADE é um critério de avaliação relativo, já que boa parte dos universitários não realizam a prova por insatisfação com a Educação Superior no país. Os estudantes contestam principalmente o caráter mercadológico do Ensino Superior Público, que, segundo eles, é um reflexo da política neoliberal. O fato do governo acabar com o financiamento público das universidades, geraria uma produção acadêmica em prol dos interesses do grande capital, segundo manifestantes da comissão de boicote ao ENADE.             

O boicote é a resposta da insatisfação dos estudantes com as reformas universitárias e com a deficiência de infra-estrutura das universidades. Os estudantes da UFBA, em nota oficial explicaram o boicote. “Consideramos este sistema avaliativo inadequado por seu caráter raqueador, por não separar públicas de privadas e pelo seu caráter pontual e punitivo”. De acordo com as lideranças estudantis este boicote ocorre desde de 2004, e é uma forma de questionar as deficiências das estruturas físicas das instituições públicas.

O pró-reitor da Universidade do Pará, Licurgo Brito criticou a forma como o assunto tem sido apresentado pela mídia. “O ENADE é apenas uma vertente do processo de avaliação do MEC, não é a única. Não podemos descartar a possibilidade de distorção no resultado por conta do boicote à prova, amplamente divulgado pelos CAs, e que pode ter influenciado negativamente nesse resultado”. Para Licurgo, outros métodos, como a avaliação interna do curso, e a análise dos recursos pedagógicos devem ser levados em consideração para se analisar a qualidade do curso de Medicina.

Saiba mais:

Manifesto de Comissão de Boicote ao ENADE
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/10/292544.shtml 
 
Com Enade, estudante deixa de ser o foco central da avaliação
http://www.une.org.br/home3/educacao/m_6046.html
Muito além do Enade
http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed115/so_no_site_reportagem_anaecamila.asp

Tem início a 1ª Conferência Nacional de Juventude

Mais de dois mil jovens reuniram-se no último domingo (27/04) em Brasília, para a abertura da 1ª Conferência Nacional de Juventude, que debaterá as políticas públicas para os brasileiros de 15 a 29 anos. Os jovens elegeram a educação como o principal tema de reivindicação, seguido por trabalho, cultura, sexualidade e saúde

Abertura da 1ª Conferência Nacional da Juventude Foto: Antonio Cruz/ABr

A proposta da Conferência é dar maior visibilidade à temática dos jovens para que este segmento da população seja devidamente atendido pelas políticas públicas nas três esferas de governo. Em entrevista à Agência Brasil, o secretário Nacional de Juventude Beto Cury destacou a importância da multiplicidade de organizações juvenis apartidárias na formação política . “O que se tem hoje é um mosaico plural de organizações juvenis que têm uma militância social, mas não, necessariamente político- partidária. Eu acho um chavão dizer hoje que a juventude é alienada”, disse o secretário.

Nas propostas relativas a trabalho, em que os jovens querem mais fiscalização sobre as condições, há um tópico especifico na conferência sobre o fortalecimento do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem). Cury, ressaltou a necessidade de uma maior adesão de prefeitos e governadores para a eficiência do projeto. “São quase R$ 1,3 bilhão, recurso suficiente para atender aproximadamente 1 milhão de jovens. É preciso mobilizar os gestores públicos a executarem os programas lá na ponta junto conosco, e ter a adesão de prefeitos e governadores ao programa,” salientou.

As pré-conferências, conferências municipais e estaduais, serviram de etapas preparatórias para a 1ª Conferência Nacional de Juventude. Destas, foram eleitos delegados e propostas que serviram de subsídio para o fortalecimento das políticas públicas de juventude. Outro caminho para discussão foram as conferências livres, que trouxeram como diferencial a possibilidade de serem organizada por qualquer entidade ou instituição como ONGs, movimentos sociais e também as populações e comunidades tradicionais, como os índios, quilombolas, ciganos, ribeirinhos e outros.

Em depoimento exclusivo para o Observatório Jovem, a Presidente do Conselho Nacional de Juventude, Maria Virgínia Freitas fez um balanço do que foram as Conferências Estaduais. Para Maria Virgínia, nas etapas estaduais os processos foram muito desiguais, tendo sido os melhores aqueles onde os governos estaduais realmente valorizaram a realização da Conferência e contaram com uma forte participação da sociedade civil.

No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, a desorganização para o credenciamento dos participantes, a falta de transparência em relação ao orçamento disponível para a realização da Conferência e os atropelos de condução dos debates e votações promovidos por representantes do governo estadual, foram as reclamações  mais enfatizadas na Carta de posicionamento da Sociedade Civil quanto à Conferência Estadual .

A expectativa é que a  1ª Conferência Nacional de Juventude se desenvolva como um espaço democrático de escuta e debate e que seu relatório expresse a pluraidade de vozes juvenis participantes e representantes de estados e identidades jovens.

Material de apoio:
http://www.juventude.gov.br/conferencia

Coletânea - Conferências estaduais
 (Blog da Roda – Pernambuco).
http://blogdaroda.blogspot.com/2008/04/conferncia-nacional-conferncias.html
 

Posicionamento de organizações da Sociedade Civil quanto à Conferência Estadual de Políticas Públicas de Juventude do Rio de Janeiro e à Eleição do Conselho Estadual de Juventudes.
http://www.uff.br/obsjovem/mambo/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=200&Itemid=32

Conferência Nacional de Juventude em foco
(Agência Ibase)
http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&pid=2292 

Desemprego é discutido na 1ª Conferência Nacional da Juventude
(Agência Brasil)
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/04/28/materia.2008-04-28.5670377540/view  

Jovens pedem que propostas debatidas na conferência se concretizem
(Agência Brasil)
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/04/28/materia.2008-04-28.8886542152/view

Passeata homenageia estudante assassinado pela Ditadura

Dia 28 março cerca de 2.500 estudantes foram às ruas para lembrar o assassinato do secundarista Edson Luís de Lima Souto durante a Ditadura Militar há quarenta anos. A passeata, que seguiu pelas principais ruas do Centro do Rio de Janeiro, também tinha como objetivo reivindicaçôes de investimentos em educação,  gratuidade nos transportes para os estudantes e  fim da violência contra jovens e trabalhadores

Do Calabouço à Bastilha
1968. O Brasil, assim como demais países da América Latina, enfrenta a ditadura militar. O povo não sabia, mas muitos “anos de chumbo” ainda viriam...
Jovens descontentes lutam pela retomada da liberdade.
O secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, torna-se símbolo desta batalha. O estudante é assassinado pela Polícia Militar durante um confronto no restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro. Sua morte retrata o início de um ano turbulento de constantes manifestações contra o regime militar, que alcança seu ápice com o decreto do Ato Institucional n° 5, o AI-5.

Uma manifestação é organizada contra a alta dos preços no restaurante Calabouço, criado e custeado pelo governo para atender a alunos da rede pública. Contudo, as manifestações haviam sido proibidas por lei em 1964, e esta é surpreendida pela chegada da polícia militar. Esta dispersa os estudantes, que se abrigam no Calabouço respondendo com paus e pedras. Os policiais revidam com tiros enquanto invadem e depredam o restaurante. Em meio ao pânico, Edson Luís é morto à queima roupa com um tiro no peito. Outros estudantes ficam feridos. Com medo de seu desaparecimento, os presentes levam o corpo em passeata até a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, onde é realizada a autópsia diante de policiais, estudantes e agentes do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS. 

O  luto vai à luta
No dia do enterro a Cinelândia acordou em protesto. Os cinemas anunciavam: “À queima roupa”, “A noite dos Generais” e “Coração de luto”. A idéia do luto coletivo era reforçada pela palavra de ordem gritada por milhares de pessoas: Mataram um estudante. Podia ser seu filho! E por cartazes que diziam: “Bala mata a fome?” E “Os velhos no poder, os jovens no caixão!”. O corpo de Edson foi enterrado ao som do Hino nacional, cantado pelos presentes.

A revolta gerada pelo assassinato de Edson Luís cresceu proporcionalmente a repressão. Em junho, estudantes de todo o Brasil se mobilizaram contra a introdução da taxa de matrícula nas universidades federais. A gradativa transformação do ensino público em ensino pago era uma das exigências dos acordos firmados entre o governo militar e a Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos, o acordo MEC-USAID. Protestos e passeatas espalharam-se por todo o país. Ainda em junho acontece a marcha dos cem mil. Os estudantes assumem papel de destaque no combate à opressão e na luta pela democracia, e ganham apoio de outros setores da sociedade.

Edson Luís. Presente!
2008 - Mas o que ficou da luta de toda uma geração? Teoricamente a liberdade de expressão e a democracia foram restabelecidas. Mas a prática caracteriza-se destoante dessa realidade.

Quarenta anos depois Edsons Luíses continuam sendo mortos em todo o Brasil. Em decorrência de um sistema social que destina à juventude pobre uma vida tolhida em seus direitos básicos e encerrada de modo violento.
No último dia 28, cerca de 2.500 estudantes, universitários e secundaristas ocuparam as ruas do centro do Rio de Janeiro para lembrar a morte daquele que se tornou simbolicamente o primeiro assassinado pela ditadura militar.

Durante o percurso, os jovens cantaram palavras de ordem pelo passe livre, contra o Reuni, pelo direito à educação pública e de qualidade e contra a violência em comunidades pobres através de “instrumentos” como o “caveirão”.

O ato começou na Cinelândia e percorreu as principais ruas do centro, passando pelo local onde ficava o Calabouço e foi encerrado na escadaria da Alerj, onde os estudantes reivindicaram investimentos na educação, gratuidade nos transportes e o fim da violência contra jovens e trabalhadores.

A passeata que durou cerca de 3 horas foi pacífica. Apesar da vigília constante de policiais militares e da presença da tropa de choque, nenhum incidente foi registrado. Guardas municipais, que faziam companhia aos policiais, fechavam e liberavam as pistas à medida que o protesto avançava.

O número de presentes (3.000) estimado pelo DCE da UFRJ, entretanto, difere do apresentado pela polícia, que declara cerca de 2.000 manifestantes.

Integravam a manifestação os movomento estudantis secundarista e universitário e movimentos sociais. Os estudantes pintaram de vermelho, com tinta guache distribuída pelas lideranças, todo o percurso, representando o sangue do estudante Edson Luís e de tantos outros assassinados pela ditadura, ontem militar e hoje social, durante a luta pela liberdade e pela igualdade de direitos.

Memórias
Um monumento inaugurado na praça Ana Amélia, no Centro, no mesmo dia, que traz uma bandeira dilacerada com pegadas de vidro, é o primeiro inaugurado pela Presidência da República em homenagem aos mortos e desaparecidos durante os “anos de chumbo”. A homenagem é resultado de uma parceria entre a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da presidência da República (SEDH), da Prefeitura do Rio, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).

Demandas juvenis na América do Sul

A pluralidade da juventude pode ser vista em uma única pessoa, que, nessa faixa etária, participa de diferentes espaços e tem diferentes papéis nos grupos pelos quais circula. Agora, imagine quantas diferenças são encontradas ao ouvir 1800 jovens espalhados pela América do Sul

Nos dias 25 e 26 de junho foi lançada no Rio de Janeiro a pesquisa "Seis demandas para  a construção de uma agenda comum”, coordenado pelo Instituto Brasileiro de Análise Social e o Instituto Pólis, em parceria com  organizações sociais e universidades. A pesquisa contou com o apoio do International Development Research Centre – IDRC. O colóquio ocorrido no Clube de Engenharia contou com a presença de pesquisadores brasileiros e de outros países da América do Sul participantes. A finalidade do evento foi expor os resultados e experiências pessoais dos pesquisadores envolvidos.

No dia 25, foi traçado o cenário nacional da pesquisa. As falas trataram das experiências e visões dos jovens envolvidos em ações coletivas ouvidos pela pesquisa. No segundo dia, o colóquio se dividiu nas seguintes mesas: “Educação e trabalho: velhas demandas, novas conexões?”, “Mais cultura e mais mobilidade: o que querem os(as) jovens Sul-americanos(as) do séc.XXI?”, “Direitos Humanos e meio ambiente: gramáticas globais podem expressar demandas juvenis locais?”.

A pesquisa foi realizada com base em diversos instrumentos metodológicos, enfatizando entrevistas e grupos focais. As atividades envolveram cerca de 815 participantes, em seis países. As entrevistas foram feitas, sobretudo, com jovens de organizações e movimentos juvenis. Entretanto, também foram ouvidas pessoas adultas que exercem funções relacionadas à juventude, como funcionários e funcionárias de órgãos públicos, especialistas acadêmicos, líderes sindicais, professores, professoras, diretores e diretoras de escolas. Cada uma das 19 situações-tipo apresenta seu próprio per.l de entrevistados(as), recurso e ferramentas metodológicas específicas. Em alguns casos, houve a utilização de formas diferentes de pesquisa, como a observação participante em manifestações promovidas por jovens.

O estudo pretende servir de base para a elaboração de políticas públicas voltadas para os jovens, que constituem 20% a 25% da população local. Seu relatório demonstra a esperança de incentivar o reconhecimento dos jovens e dos grupos juvenis como agentes decisivos do processo de integração dos Povos da América do Sul.

Segundo a pesquisa, os jovens são as maiores vítimas das pressões sofridas na América do Sul, tanto pelos governos autoritários com suas frágeis transições para a democracia quanto pela dependência estrangeira e diferenças sociais ampliadas pelas políticas neoliberais.

As experiências sociais de indivíduos e coletivos precisam ser relacionadas com as dimensões regional, nacional, continental e planetária da vida social. Os países pesquisados foram Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Paraguay e Uruguay.

Como encontrar as demandas comuns a estes jovens?

Demandas estas que divergem em muitos pontos, segundo o pesquisador José Roberto Novaes, que participou da pesquisa “6 demandas para uma agenda comum” no Brasil. Os pedidos que os jovens migrantes cortadores de cana fazem dizem respeito a um banheiro na roça, algo bem diferente de pedidos como “acesso à produção cultural” comum nos centros urbanos.

Segundo a pesquisadora  Helena Abramo, hoje em dia ao se falar de juventude, a educação é a única meta que já aparece como direito garantido dos jovens. É a única que constrói um consenso, por isso a primeira demanda identificável. “Direito que garante os outros direitos”. Porém, para os jovens ouvidos não existe mais a opção “educação OU trabalho”,  para eles é “educação E trabalho”.

Ana Karina Brenner representou o Observatório Jovem na pesquisa ouvindo jovens da Fórum de Juventudes da cidade do Rio de Janeiro. O Fórum de juventudes tem como principal objetivo discutir políticas públicas de juventude porém o espaço tem sofrido com a dicotomia de seus integrantes. O Fórum se divide em dois grupos, que, segundo a pesquisadora, têm tido pouco contato, um grupo é formado por jovens e o outro por adultos e lideranças. Para a pesquisadora, a falta de comunicação entre esses grupos faz o fórum se estagnar em certos posicionamentos.

Jovem trabalhar é direito?

Na pesquisa a questão do trabalho  aparece como elemento importante na transição da juventude para a vida adulta, como componente fundamental na formação da experiência, na localização no mundo e na formação de redes de contato. Assim, aparece, também, como aspiração e componente estratégico na demanda por inserção social.

O trabalho vem em segundo plano por não ser tão discutida a questão dos jovens dentro do mercado. Não se chega ao consenso se é melhor retardar a entrada do jovem no mercado ou se é melhor que este tenha uma inserção facilitada por ter mais dificuldade devido à falta de experiência.  Mas já é notado no discurso dos jovens que a experiência profissional é importante para a formação assim como os estudos.

A identidade que se faz em torno dos jovens inseridos no mundo do trabalho se faz presente tanto no sertão, com os cortadores de cana, quanto com a população urbana de São Paulo, do sindicato dos empregados no tele-marketing. As condições que envolvem trabalhar sob forte pressão trazem à tona a dificuldade de estudar após um dia de exaustivo trabalho.

O pesquisador Maximo Quisbert, da Bolívia, pesquisou o movimento das trabalhadoras do Lar, da Bolívia. Movimento que começou no início dos anos 90. Segundo a pesquisa, elas vêem o emprego como fase transitória, cuja finalidade é o estudo. Mas, o que mostra a pesquisa é que muitas vezes a volta ou a entrada para o mundo estudantil é dificultada pela precoce inserção no mercado.

E quem não está na cidade...

No meio rural, entram os direitos ambientais. Jovens paraguaios rurais expressam negativamente o impacto da agricultura mecanizada de alta tecnologia. O aumento da produção, principalmente da soja transgênica, intensifica o uso da terra, o que aumenta o preço  do lote e torna cada vez mais distante a idéia de uma reforma agrária. Com demandas tão diferentes, como direitos ambientais e acesso a transporte, uma identidade juvenil camponesa se faz necessária pelos movimentos rurais para a construção de uma agenda de lutas comum.

O ir e vir como cultura

Outro direito que não é visto como algo inerente à juventude no senso comum é o acesso à fruição e à produção cultural. Tendo a cultura como forma de expressão, os jovens travam a luta por visibilidade. Demanda muito notável no movimento hip-hop identificada pelos pesquisadores Rosilene Alvim e Adjair Alves na ação cultural de jovens de Caruaru – Pernambuco.

A apropriação do espaço da cidade e do campo pelos jovens ainda gera muito debate entre grupos juvenis. Alguns defendem o passe livre para todo e qualquer jovem, outros já dizem ser este um direito apenas do estudante. A demanda por circulação e mobilidade dá aos jovens o acesso aos direitos sociais. O direito à circulação garante o acesso à educação, ao trabalho, à cultura, e ao lazer, por isso tal demanda não pode ser dissociada das outras.

Leia os relatórios nacionais, os relatórios das situações-tipo no Brasil e o relatório final na íntegra.
http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&file=index&pa=showpage&pid=2211

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